quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Enquanto água, Altair Martins


No mais recente Paiol Literário, aqui em Curitiba, Altair Martins (1975) disse: “O narrador em terceira é perigosíssimo hoje. Porque é a pretensa verdade. É aquele narrador que pára e diz: “Fulano nascera…”. Não dá mais. Ninguém mais acredita nesse narrador que quer te convencer: “Eu tenho uma bagagem histórica sobre o personagem e agora vou mostrá-la”.”

Martins, que é doutorando em Letras pela UFRGS, já tem publicado quatro livros (A parede no escuro, romance de 2009, foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria autor estreante). O mais recente, a coletânea de contos Enquanto água (Record, 2011), é a reafirmação da frase do primeiro parágrafo. Em uma sucessão de contos, na maioria breves, Martins constrói uma obra cujo narrador está em constante crise: isso sem deixar de lado um grande talento para simplesmente contar uma história.

Os 18 contos — alguns deles já publicados em revistas ou outras antologias  são divididos em quatro partes: “Chuva na cara”, “Depois da chuva”, “Garoa” e “Água com gás”, e as histórias encontram uma convergência dentro de cada divisão. Os contos da primeira parte são, quase todos, brilhantes. Em “dois afogados”, o narrador utiliza recursos ousados (como placas de trânsito e uma alternância de vozes) para criar uma história que vai muito além da própria narrativa. Lembrei, lendo, de uma passagem de um livro de Luiz Felipe Leprevost que se encaixa magicamente aqui: “Segui placas de contramão”.

“homens de verdade” insere o tema da homossexualidade no livro narrando a história de jovens (crianças) cruéis. Um dos recursos utilizados nesses contos é o final arrebatador: quase sempre na última linha. Isso é muito difícil de ser bem realizado, e lembra, por exemplo, Cortazar. 

Altair Martins
(Divulgação Record)
A segunda parte, com apenas um conto, simboliza uma ficção um pouco diferente. Se é comum vermos uma linhagem que utiliza a própria literatura como artifício (da qual sou fã, assim como Altair Martins, pelo que parece; cito Enrique Vila-Matas como exemplo), Martins utiliza o conhecimento teórico da área de humanas para produzir um Mal de Montano às avessas: o personagem parece enlouquecido pelo próprio excesso de conhecimento (aparecem teorias de Peirce, Langmuir, Lévi-Strauss, Lacan, Borges, e outros).

A terceira sessão, “garoa”, guarda eco exatamente de Borges: uma metafísica aplicada que pretende criar um mundo particular, com elementos que pedem uma segunda olhada, e que te faz dizer: “é isso mesmo?”. Por exemplo, no conto “quase oceano quase vômito”:

“Aquele rio não aceitaria assim tão fácil. Dominava um continente e um pátio no oceano. E quando amanheceu completamente água, e nu, como se nascendo, não houve quem não se espantasse. Era o primeiro dos tantos rios que, sem explicação, voltavam à limpidez original. Eram rios tão puros que os leitos podiam ser lidos”.

A quarta sessão, “Água com gás”, mostra todo o talento do escritor ao praticamente fazer um resumo do livro: histórias interessantes com estruturas bem pensadas e nunca tradicionais. No conto “o mar, no living” (título de um poema de Carlos Drummond de Andrade, que dá a seguinte epígrafe: “o mar tudo recobre / sem nada asfixiar”), o próprio mar, isto é, a água invade o ambiente de uma festa de aniversário infantil:

“E então, mal a vela se acende, o mar entra no living, atravessando os vidros e ocupando, com azul e fauna, os espaços da fest. E posto seja mar e se comunique com o oceano, ele surpreende em ser tudo menos violento, e não apaga vela ou palma. Apenas que a festa segue, percebida pelos sentidos abafados. É a luz de uma vela sob o mar. É um parabéns afogado. São raízes da fumaça dentro d’água”.

É exatamente a água o ponto chave desse livro (claro): a água, que às vezes aparece apenas como rio, mar ou chuva, mas muitas vezes como metáfora de sentimentos tão humanos como a esperança, a saudade, o arrependimento, a traição e, em última instância, a morte.

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Outro aspecto importante na obra de Martins, segundo o próprio, é o engajamento. 

[A literatura] deve mostrar que existe uma pretensão de realidade, muito falsa, produzida às vezes pela mídia. Existe um Brasil da televisão e existe o Brasil real. Então, a função da literatura é esta: de alguma maneira corroer a verdade que pretende ser verdadeira. Por isso o engajamento. O escritor não pode deixar de mostrar que essa realidade é falsa e mostrar uma outra realidade possível — que, ao meu ver, só a literatura vai mostrar.

Quando uma mulher enfrenta dificuldades com o marido alcoólatra e tenta fugir com o pastor da igreja; quando um homem muito religioso, esmagado por uma culpa muito grande, se vê incumbido de cuidar de duas filhas e percebe que não é capaz; quando uma mera brincadeira doméstica vira tragédia. Pequenos exemplos do engajamento de Martins: sempre recoberto por uma camada de excelente prosa ficcional, percebe-se um texto preocupado com o lugar que a própria literatura pode ocupar em uma sociedade de não-leitores.

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Trecho do conto “unha e carne”, que narra a relação de Irene (mãe), Luciana (filha) e Jorge (padrasto):

“Luciana pediu café. Antes que Irene se rendesse e lhe pedisse para não acreditar nas coisas que ouvia, a filha arranjou modos de olhar o relógio, inquietar os cabelos, atirar os olhos aos cantos e dizer que tinha de ir, senão chegaria atrasada ao trabalho. Irene, ao portão, sentia então que mais coisas ficariam à espera da água. A filha ainda disse Não precisa ir se não quiser. Mas Irene sabia, desde que Luciana fora morar sozinha, que aquilo tudo entre a filha e Jorge era como a louça. Não precisava lavar se não quisesse.”

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Enquanto água
Altair Martins
160 páginas
Preço sugerido: R$27,90

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No vídeo abaixo, Reginaldo Pujol Filho e Altair Martins fazem uma divertida leitura do conto "Quero ser Altair Martins", do livro Quero ser Reginaldo Pujol Filho, já resenhado por aqui.



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Se você gostou desse, provavelmente também vai gostar de:

Suicídios exemplares
Enrique Vila-Matas
Tradução: Carla Branco
Cosac Naify (2011)
208 páginas
Preço sugerido: R$49,00

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A máquina de madeira, Miguel Sanches Neto


O Brasil existe? Essa parece ser a pergunta que ocupa A máquina de madeira (Companhia das Letras, 2012), romance mais recente de Miguel Sanches Neto (1965). Como o próprio diz, esse é um romance de um país antigo e atual. É verdade.

A classificação de romance histórico é inevitável: o livro conta a história de Francisco João de Azevedo (1814-1880), padre e inventor brasileiro que teria desenvolvido a primeira máquina de escrever do mundo (pelo menos, capaz de ser produzida em escala industrial). Francisco existiu de fato, assim como sua invenção e como boa parte da história desse livro. Isso é importante na medida em que reconhecemos o extenso trabalho de pesquisa do autor; desimportante se alguém quiser considerar onde começa e onde termina a ficção. Porque A máquina de madeira é um romance histórico, ambientado especialmente no Rio de Janeiro (mas também no nordeste), que conta a história de um brasileiro empreendedor habitante de um país, ele sim, de madeira.

Porque é a essa conclusão que se chega durante a leitura do romance: a máquina de madeira é o próprio Brasil. O século XIX brasileiro é no mínimo conturbado, e talvez toda a movimentação política interna do século tenha fechado os olhos do país (ou de seus dirigentes mais importantes) para a questão do progresso material (sempre duvidosa, mas, naquela altura, obviamente necessária). 

“Não há indústria mais necessária para o país, pensava dom Pedro, do que a de beneficiamento de madeira. Nossas madeiras, tanto pela variedade quanto pela qualidade, se sobrepõem às de outros países. Se nosso próprio nome vem de uma madeira, são as árvores o que melhor nos representam”.

Não houve uma política marcante de desenvolvimento econômico sólido. Antes, a importação em massa de (falo com base no romance) ferro. Porque, aparentemente, era isso que era necessário para o país crescer (ser um país de verdade): ferro. Poderíamos resumir assim: o romance trata da história do padre Francisco buscando alguém que possa fundir a sua máquina de madeira. Ou: o romance trata de uma metonímia da história do Brasil buscando ferro em outros lugares para fundamentar a sua própria unidade como país. Ambas as descrições estariam corretas.

Miguel Sanches Neto
(Divulgação Companhia das Letras)
O romance é dividido em duas partes maiores, “Londres” e “Nova York”; ambas fugas fracassadas para as duas cidades, que supostamente acompanhariam a mente avançada de um brasileiro com olhos para o futuro. O narrador parece ser sempre aquela terceira pessoa distante, do próprio séc. XIX. Isso muda quando Sanches Neto insere no romance variações estruturais (ao usar diferenças tipográficas, como o itálico, ou formatações de notícias de jornal, por exemplo) que criam a dinâmica na leitura.

O trabalho da própria linguagem também aparece: especialmente por sutis escolhas de vocabulário, um português não muito diferente, mas que remete ao séc. XIX, é usado para narrar a história (o autor falou sobre isso numa entrevista, clique aqui; ele disse que se apropriou da linguagem de diários e anotações pessoais da época para criar um idioma mais próximo, mas não oficialiesco, alencariano).

Em outra interpretação da história, também podemos ressaltar o papel secundário que a máquina ocupa, paradoxalmente. Depois de sua invenção, é urgente encontrar para ela alguma utilidade, algo que a justifique, que a exima da culpa de ter nascido para escrever num país não desenvolvido. Gravar sermões nas igrejas e depois as discussões na Assembleia Estadual de Pernambuco não foram suficientes para reverter o papel secundário da escrita na própria história do Brasil.

Talvez, agora percebemos, essa luta já seja ultrapassada. Talvez a necessidade seja, atualmente, reconhecer esse próprio caráter secundário da escritura, e com ele fazer alguma coisa. Trabalhamos.


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A máquina de madeira
Miguel Sanches Neto
248 páginas
Preço sugerido: R$36,00

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“Se temos madeira, também temos cupim, muito cupim, com uma voracidade que só os insetos tropicais sabem ter, e também com uma assustadora capacidade de reprodução. [...]Nos trópicos, tudo estragava muito mais rápido. Tudo envelhecia de maneira muito mais veloz. Ele mesmo, que não tinha ainda quarenta anos, já se sentia um ancião. Nem se fôssemos feitos de ferro suportaríamos a vida aqui, e no entanto somos feitos de madeira”.


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Se você gostou desse, provavelmente também vai gostar de:

Viva o povo brasileiro
João Ubaldo Ribeiro
640 páginas
Preço sugerido: R$69,90

Obrigatório.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

E se contorce igual a um dragãozinho ferido, Luiz Felipe Leprevost

Como foi dito por aqui há algum tempo, achar o equilíbrio numa narrativa ao misturá-la com poesia pode ser um processo arriscado: cair na pieguice e usar imagens desnecessárias é um risco constante, e saber se esse risco é necessário também é outra questão. Porém, quando o escritor consegue juntar seu talento poético e metafórico numa narrativa prosaica, o resultado é sempre recompensador. Essa proposta foi bem cumprida pelo escritor curitibano Luiz Felipe Leprevost no seu livro mais recente, E se contorce igual a um dragãozinho ferido (Ed. Arte e Letra, 2011).

Leprevost tem trânsito: em Curitiba e no Rio de Janeiro, ele compôs uma obra artística que extrapola os limites da literatura (são pelo menos três livros de contos, um de poesia, e uma novela), alcança a dramaturgia e, especialmente, a música. A ponto de ele chegar a declarar em redes sociais que “não sabe mais o que é literatura”. A parte a brincadeira, de fato nos últimos meses ele se dedicou bastante à sua carreira musical, da qual já saíram músicas muito bonitas.

Esse talento poético para a composição inevitavelmente seria refletido na sua escritura: E se contorce... encontra paralelo temático, por exemplo, na seguinte canção (que nasceu de um poema seu; é ele quem canta a versão abaixo):



Segundo o próprio afirmou na última edição do Festival Nacional do Conto, ele primeiro encontrou em si mesmo uma voz poética, para em seguida encontrar a narrativa dentro da própria poesia. Isso explica o frequente uso de imagens metafóricas, característica desse livro (e de toda a prosa do autor), narrado pelo próprio personagem, em duas estruturas: uma delas em Curitiba, supostamente no presente, a outra no Rio, “cinco anos” atrás.

Um dia, quando vi, meus braços tinham sido transformados em tentáculos de polvo, querendo abraçar sua ausência. Lembrei por tanto tempo a pele e a bocarra dela como as de um crocodilo que ficava ao meu lado um pouco e sumia. Minhas mãos em pinças, patolas de caranguejo, não a impediam de partir.
    Nossa ternura era feita de garras, não de dedos. De chicotes, não línguas. Camisas de força, não abraços. Chave e fechadura.
    Mas deixa eu contar do começo.
Luiz Felipe Leprevost
Foto: Marco Novack
Descobrir quem é esse personagem talvez seja uma investigação interessante. O suposto publicitário curitibano vai tentar a sorte no Rio de Janeiro, no mundo empresarial da propaganda, e acaba vivendo uma vida provisória em quartos alugados, poucos amigos e, claro, o fio condutor da história, um amor.

Mas o que descobrimos ao ler essa narrativa é que o narrador é, na verdade, um poeta frustrado. Ele diz algumas vezes que escreve uns poemas, mas o maior poema que ele escreve é na verdade aquele que estamos lendo. E isso é tudo.

“Ela me perturbava. Eu que tinha colecionado medalhas de atleta e amores doídos ao longo da vida, que no passado aparei os cabelos da chuva, queria agora protagonizar o filme de açúcar cristalizado que em sua mente trepidava.”

Sobre a história (e não se preocupe, você descobre isso logo no início), o amor é na verdade um desamor, um não-amor, um processo lento e extremamente doloroso de um amor acabando (“ternura feita de garras, não de dedos”). O amor acaba em todos os lugares, como disse Paulo Mendes Campos, e esse livro aqui é um tratado sobre o finalmente do amor. A distância entre o Rio de Janeiro e Curitiba (simbolicamente, a distância entre o casal de personagens) também é importante aqui: transformá-la em apenas uma linha de texto é o que tenta fazer (e consegue) o narrador.

E é esse personagem que passa pelo processo de desconstrução o grande trunfo do livro. Descobrir e entender por que isso acontece é a tarefa do leitor.

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E se contorce igual a um dragãozinho ferido
Luiz Felipe Leprevost
Arte e Letra (2011)
119 páginas
Preço sugerido: R$25,00

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Um erro emocional
Cristovão Tezza
Record (2010)
192 páginas
Preço sugerido: R$34,90