segunda-feira, 8 de abril de 2013

Marcio Renato dos Santos: "Todos falam, ninguém se entende. É o caos."

O nome impronunciável do segundo livro de contos de Marcio Renato dos Santos (1974), jornalista e escritor curitibano, é uma resenha em si mesmo: Golegolegolegolegah!.

Segundo Marcio Renato, autor de Minda-au (contos, lançado pela Record em 2010), o título impronunciável faz alusão à incomunicabilidade. “Estamos no século 21 e, apesar dos equipamentos, do avanço e da disponibilidade dos recursos tecnológicos, quase não conseguimos nos comunicar. Todos falam, ninguém se entende. É o caos. É a incomunicabilidade. É isso que está no livro”, comenta.

Num ótimo projeto gráfico da Travessa dos Editores, com ilustrações de Marciel Conrado, Golegolegolegolegah!, lançado mês passado em Curitiba, tem seis contos, sempre narrados em primeira pessoa. Na entrevista a seguir, Marcio Renato dos Santos, que também é mestre em Estudos Literários pela UFPR e curador do projeto Tulipas Negras Editora, fala sobre o novo lançamento e tenta, enfim, comunicar-se.

Biblioteca Vertical: No seu primeiro livro, Curitiba parecia ser um personagem principal, muitas vezes a cidade era trazida para o centro do conto. Em “Gole...” você diz: “Posso estar em Maringá, Florianópolis, Caxias do Sul ou Campinas. Que diferença faz?”. O que mudou? Curitiba representa alguma coisa na sua criação artística?

Marcio Renato dos Santos: Houve esforço, não da minha parte, mas de algumas pessoas para dar a entender que Minda-Au, meu primeiro livro, publicado em 2010 pela Record, seria uma obra autobiográfica. Curioso, não é mesmo?  Ficção, que é quase indefinível, mistura memória, delírio, sons, música, sonho, linguagem e algo que não se define. 

Autobiografia? Como? 

Nos sete contos de Minda-Au, havia sim referência a ruas, praças e espaços públicos de Curitiba. Disseram que Curitiba seria cenário e até personagem de Minda-Au. Considero a opinião válida.

No entanto, em Minda-Au os narradores fazem referências a outras Curitiba, as Curitibas literárias, inventadas por Newton Sampaio, Dalton Trevisan, Jamil Snege, Fábio Campana, Roberto Gomes, Cristovão Tezza, José Carlos Fernandes, entre outros autores. Há conversa com as Curitibas da ficção. 

Já em Golegolegolegolegah!, não há nenhuma referência geográfica à capital do Paraná. Golegolegolegolegah! é um livro de circunstância, sobre a incomunicabilidade.  
Respondi? 

Acho que não. 

Curitiba representa, para mim, tudo. Até na criação artística. É a cidade onde nasci. O local onde moro e nasceu o meu filho Vitor. Trabalho, caminho e atravesso madrugadas, manhãs, tardes e noites em Curitiba. 

Mais do que tudo, Curitiba é uma cidade na qual não existe, nem em sonho, o que chamam de autofagia. Quem fala de autofagia em Curitiba desconhece o ser humano e o mundo. Quem fala de autofagia nunca esteve em Curitiba. 

Biblioteca Vertical: Todos os contos do livro são narrados em primeira pessoa. Isso é uma desconfiança, uma tática, um artíficio ou uma coincidência?

Marcio Renato e a pimenteira
(Foto: Daniel Snege)
Marcio Renato dos Santos: Um livro de contos, para mim, e já publiquei dois, é – mais do que tudo – um conjunto de textos que conversam entre si. O Gudryan Neufert, um amigo que é jornalista e mora em São Paulo, leu Golegolegolegolegah! e escreveu o seguinte: “O livro trata da incomunicabilidade moderna. A escrita em primeira pessoa traz as angústias silenciosas do eu. São seis contos que podem ser lidos aleatoriamente mas que também não escondem suas correlações temáticas”.

Perceba: é um outro olhar, e não o meu. O Gudryan afirma que os contos escritos em primeira pessoa não escondem suas correlações temáticas. O Gudryan leu, de fato, Golegolegolegolegah!.

Escrevi esses contos durante 2011. Em outubro daquele ano, reli e reescrevi os textos, e me dei conta de que havia uma conexão entre eles: todos tratam da incomunicabilidade. Os personagens estão acossados, no limite. Em dezembro de 2011, o Fábio Campana me telefonou e perguntou se eu tinha um livro para ele publicar pela Travessa dos Editores. Disse que sim, mas gostaria de publicar um livro com um nome impronunciável, Golegolegolegolegah!, para fazer alusão à incomunicabilidade. O Campana gostou da ideia e o livro de fato foi publicado pela Travessa dos Editores. 

Estamos no século 21 e, apesar dos equipamentos, do avanço e da disponibilidade dos recursos tecnológicos, quase não conseguimos nos comunicar. Todos falam, ninguém se entende. É o caos. É a incomunicabilidade. É isso que está no livro.

Posso fazer uma sugestão. Grave uma conversa. Qualquer uma. Em qualquer dia. Depois, transcreva a conversa. E conte quantas vezes as pessoas falam eu. Todos falam eu, eu, eu, eu, eu, eu, muitas, diversas vezes. O tempo todo.

Em um contexto desses, optei por narradores em primeira pessoa. 

Mas não vou ficar aqui, eu, eu, eu, apenas eu falando do Golegolegolegolegah!.

O poeta Sergio Napp vive em Porto Alegre: ele recebeu o livro e me a seguinte mensagem: “Acabo de ler o teu livro e, como de hábito, o que me surpreende é a linguagem. Teus contos são de circunstâncias e quase prescindem de personagens. Os personagens servem para que o conto se estruture em uma situação e não para serem o centro da história. Isto me agrada muito. É um tanto novo. Por outro lado, teus contos não fecham, fica um sabor de ‘e daí?’. Isto me agrada mais. Fazer o leitor pensar. O que une os teus contos é o movimento externo, avião, automóvel, o ônibus, caminhar, etc. Ao mesmo tempo, na maioria há um dinheiro que surge de repente e muda a vida. Isto dá uma unidade ao livro e, lá pelas tantas, pode-se pensar que sempre temos o mesmo personagem em tempos vários. O melhor dos contos? Vamos ver:’ Nevoeiro’ e ‘Cento e noventa’. Pra finalizar: o invólucro: um dos livros mais bonitos que eu vi nos últimos tempos. Dá um prazer enorme folheá-lo. Acho que vou relê-lo.”

Que tal a opinião do Napp?

Outro leitor atento é o Eleotério Burrego, que leu Golegolegolegolegah! e escreveu o seguinte: “Você conseguiu traduzir neste livro parte da angústia nos assalta dia a dia frente a tecnologia que invadiu nosso contato diário. Pulverizando as relações em coisas frívolas, dispersivas. Ótimo livro, muitas pessoas se identificarão nos vários contos bem escritos. Magnífico”

Creio que os olhares do Napp, do Eleotério e do Gudryan ajudam a responder. Ou não?

Ah, faltou afirmar: pode existir coincidência na vida, mas nas páginas, linhas e entrelinhas de Golegolegolegolegah! não há coincidência. 

Biblioteca Vertical: Tem uma passagem no conto “Cento e noventa” em que o narrador-personagem faz uma reflexão sobre dois artistas dos quais ele diz não gostar:

“É que li na capa do caderno de cultura uma matéria, exagerada, sobre um personagem que conheço faz tempo. Ele é músico, ou melhor, se considera cantor e compositor, mas eu não tenho a mesma opinião sobre o assunto. [...]
E esse outro Fulano, o que se acha escritor? Não, não pode ser. [...] Só pode ser pegadinha. É real? No twitter só falam dele. Está aí. É a unanimidade do momento.
Sem dúvida, mais um equívoco”.

Você também é jornalista e crítico de cultura, então diga: com que frequência o Marcio Renato dos Santos se vê com os mesmos pensamentos desse personagem (nesse trecho)? Há muitos “embustes” por aí?

Marcio Renato dos Santos: O personagem de “Cento e noventa” está morto. Desde a primeira palavra, desde a primeira linha do conto. Mas ele não sabe, pelo menos no início, nem desconfia de sua condição, situação. É um sujeito que desejou se tornar artista, mas entrou em outros enredos. Não se sabe se desistiu da arte ou se constatou que a criação artística não seria o seu caminho. No entanto, quando encontra conhecidos, do passado, que no presente narrativo são reconhecidos como artistas, ele surta. Eis um dos conflitos do personagem sem nome. 

As ideias do personagem do conto “Cento e noventa” representam uma mentalidade, não necessariamente a minha. 

Talvez até ao contrário. 

A ficção que escrevo não é autobiográfica. Eu não sou os personagens que invento. Não tenho nada, ou quase nada, a ver com os personagens de Golegolegolegolegah! Apesar da primeira pessoa. Aquele eu não sou eu.  O narrador de “Cento e noventa” dirige um carro: eu não sei dirigir. Sou pedestre.  Daí, você poderia comentar: Mas o narrador do conto “Zé Ruela” é um pedestre, não é? Mas aquele personagem só anda, e eu ando, mas também faço algumas outras atividades. 

Sobre a sua pergunta, não posso responder uma vez que não sou o personagem que, inclusive, está morto.

Biblioteca Vertical: Uma curiosidade: o que você leu, ou tem lido ultimamente, que valeu mesmo a pena?

Marcio Renato dos Santos: Tenho lido muitos textos de qualidade. Por exemplo, as crônicas, às vezes contos, que o Fábio Campana publica na Ideias são brilhantes, já leu? Ele é dono de uma das mais vozes literárias mais instigantes da contemporaneidade. Leio a crônica do Roberto Gomes a cada 15 dias na Gazeta do Povo. A crônica do José Carlos Fernandes toda sexta-feira na Gazeta do Povo. O texto do Rogério Pereira, sempre às segundas, no Vida Breve, uma ficção forte, única, com pegada. Os textos que o Luiz Rebinski Junior produz para o jornal Cândido, além do conto que ele escreveu chamado “Uma mulher com um W enorme”. Os perfis que Omar Godoy escreve todo mês para o jornal Cândido. Os textos do Felipe Kryminice na Ideias. Os posts do Arthur Tertuliano, e as resenhas que ele escreve para o Rascunho. A bossa do Renan Machado. Qualquer prosa do Guilherme Magalhães.

No que diz respeito a livros, estou fascinado com Os enamoramentos, de Javier Marías. Toda obra do Enrique Vila-Matas, mas daí é releitura. Todo dia leio um trecho de um livro do Vila-Matas. Também releio e recomendo Anedotas do destino, de K. Blixen, A árvore de Isaias, do Campana,  O conhecimento de Anatol Kraft, do Roberto Gomes, O coronel Chabert, do Balzac, O livro do medo, do Guido Viaro, Trato de silêncios, da Luci Collin, Sergio Y vai à America, de Alexandre Vidal Porto, Sexo, do André Sant’Anna e Pornopopéia, do Reinaldo Moraes. E também leio e releio o encarte do álbum Abraçaço, do Caetano Veloso.

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Golegolegolegolegah!
Marcio Renato dos Santos
Travessa dos Editores (2013)
80 páginas
Preço sugerido: R$30







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Trecho do conto "Cento e noventa":

"Mas, sabe, tive de abandonar a arte, sobretudo após me deparar com artistas expressivos.
Por quê?
Porque eu nunca, jamais seria um artista visceral. 
Não me conformo é com o fato de sujeitos sem talento, como eu não tinha e não tenho, não abandonarem a arte, como eu abandonei.
Mais do que isso até, o que me deixa perplexo, irritado e com vontade de gritar é que esses sujeitos seguiram carreiras, emplacaram obras e se consolidam como referências." (p. 71).

quarta-feira, 20 de março de 2013

Pastoral Americana, Philip Roth


Pastoral Americana é um livro incrível e grande. Livros grandes têm maior facilidade de serem incríveis, e os últimos livros grandes que li (Anna Kariênina, por exemplo) foram sempre incríveis. Mas nenhum deles me deixou tão triste ao terminá-lo quanto Pastoral Americana. Há cenas, neste livro, que fazem chorar, que fazem pensar, que fazem você querer parar de ler, colocá-lo de lado, e gritar Meu deus, por que ele (Roth) está fazendo isso, por quê, por quê?

Desse tanto. Pastoral me deixou com insônia.

No livro, o narrador é o já estabelecido Nathan Zuckerman, alter-ego de Roth, que, diferentemente dos romances publicados no Brasil na edição de Zuckerman acorrentado, não é o personagem principal, mas principalmente o narrador. Na primeira das três partes do livro, Zuckermann narra em primeira pessoa sua própria experiência com Seymour Levov, o Sueco, esse sim o personagem principal do livro.

A convivência entre os dois se dá na escola secundária, quando Sueco era, aos olhos de todos, um atleta excepcional, invejado, lindo, musculoso, ídolo secreto de Zuckerman, que por sua vez, era amigo de Jerry apenas por este ser irmão do Sueco (Jerry, mais tarde, é o máximo). Muitos anos depois, Sueco e Zuckerman se encontram novamente, duas vezes (com um intervalo grande de tempo entre os dois encontros). É a partir do segundo que Zuckerman escreve o que escreve, que resulta nas duas partes finais do Pastoral Americana (que junto com A marca humana e Casei com um comunista formam a Trilogia Americana).

E é aí que você vai morrer de desgosto. A história do cara bonitão, que herda a fábrica de luvas do pai, que se casa e vai morar em uma região rural de New Jersey e tem uma filha que se revolta contra a Guerra do Vietnã é emocionante, sofrida, espetacular, trágica, inesquecível.

A narração de Zuckerman (na tradução de Rubens Figueiredo), que mistura a terceira pessoa, reflexões, pensamentos e suposições do Sueco, faz o livro de 500 páginas voar. Os temas, sempre presentes na obra de Roth, são igualmente irresistíveis: conflitos familiares levados ao extremo, dificuldade com as mulheres, judaísmo, e, claro, a América.


Óbvio que ninguém vai julgar um livro cujo título é “Pastoral Americana” por ele ser, digamos, americanista. O próprio Rubens Figueiredo, num encontro aqui em Curitiba, propôs uma reflexão que muitas vezes passa batida por nós, leitores brasileiros.

Mas antes, quero trazer um conceito dos estudos de recepção, o “narratário”. Diz Vincent Jouve: “Simetricamente, o receptor é ao mesmo tempo o leitor real, cujos traços psicológicos, sociológicos e culturais podem variar infinitamente, e uma figura abstrata postulada pelo narrador pelo simples fato de que todo texto dirige-se necessariamente a alguém. Mediante o que diz e do modo como diz, um texto supõe sempre um tipo de leitor - 'um narratário' - relativamente definido. (...) Pelos temas que aborda e pela linguagem que usa, cada texto desenha no vazio um leitor específico. Assim, o narratário, da mesma forma que o narrador, só existe dentro da narrativa: é apenas a soma dos signos que o constroem.”

O “narratário” desse livro, então, é o leitor americano de Zuckermann. Esse pensamento nos leva para a reflexão de Rubens Figueiredo:

“Ao ler com atenção os livros deles [Susan Sontag e Paul Auster], você não encontra críticas a respeito da distribuição desigual de poder no mundo. O postulado desses autores pode ser entendido como ‘os Estados Unidos dominam e é bom que seja assim’. [...] Estou traduzindo um livro que, a cada dez páginas, o autor fala em povo americano, democracia americana, sociedade americana, os Estados Unidos. É impressionante. E nós lemos e não percebemos isso. Não percebemos porque o nosso pressuposto é que isso é normal. Mas isso não é normal”.

Não é normal, mas acontece (e nesse caso, duas vezes, porque o narratário e o leitor real são americanos). Tem um poeminha do Leminski (tá na moda!) que ilustra perfeitamente:

"podem ficar com a realidade
esse baixo-astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano"

É isso! Parte do meu imaginário (parte significativa, infelizmente talvez) é moldada pela porra do cinema americano, e aí, quando um sujeito escreve um livro chamado Pastoral Americana eu sinto como se eu mesmo tivesse lembranças de verdade sobre o lugar e a identificação é inevitável. É incrível, mas é terrível ao mesmo tempo.

Diz Roth (Zuckermann):
“A ruptura do futuro americano previsto, que consistia simplesmente no desenrolar do consistente passado americano, no fato de cada geração se tornar mais esperta que a anterior - mais esperta por conhecer as inadequações e limitações das gerações precedentes -, [...] no desejo de ir até o limite na América apoiados nos nossos direitos, [...] de forma a levar a vida sem ter de pedir desculpas, como um igual entre iguais. 
E então a perda [...] - iniciando o Sueco no desajuste de uma América completamente distinta, a filha e a década fazendo picadinho da sua forma particular de pensamento utópico, a América da peste se infiltrando no castelo do Sueco e, ali, infectando todo mundo. A filha que o transporta para fora da sonhada pastoral americana [...].”

A Pastoral é o sonho americano, the american dream, the american way of life, the wellfare state, the motherfucking Thanksgiving, com seu “peru gigante que alimenta 250 milhões de almas atormentadas” (“É a pastoral americana por excelência, e dura vinte e quatro horas”). O sonho é viver dentro da Pastoral, ser consumido pela Pastoral, está tudo ali, ela nos alimenta, nos fornece o football, nos enriquece, por que alguém em sã consciência deveria mudá-la?!

Mas o Sueco é transportado para fora da Pastoral.
“E por que não deveria estar onde eu queria? Por que não deveria estar com quem eu queria? Não é esse o espírito desse país? Quero ficar onde quero ficar e não quero ficar onde não quero ficar. É isso o que siginifca ser americano... não é?”
O que se passa, nas 500 páginas do livro, é o processo extremamente doloroso do Sueco sendo levado para longe da Pastoral. Não pense em dívidas, dúvidas simples, reflexões de escritores em cafés, filosofia rasteira, acontecimentos lineares, nada disso.

Pense num escritor. Agora, pense em uma obra-prima.

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Pastoral Americana
Philip Roth
Tradução Rubens Figueiredo
480 páginas
Preço sugerido: R$69,00; ebook até sabe deus quando R$9,90

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Se você gosta de Philip Roth e habita a internet literária do Brasil, conheça e frequente o Livros Abertos, um dos poucos blogs brasileiros por aí que eu ainda não vi ninguém xingar (alô, Camila!).

Philip Roth completou 80 anos no dia 19. Espero que ele esteja com saúde e viva bem e mais quantos anos quiser.

Devido à data especial, a Internet recebeu ou relembrou muito conteúdo sobre Roth. Bom. Estou buscando o link para o documentário Philip Roth: Unmasked, da série American Masters da PBS (uma dessas megacompanhias que deformaram os nossos imaginários), mas ainda não achei. Se alguém achar, passa ae! Quando encontrar, colocarei aqui e no tuíter. 

Se você curte e-books, e é difícil achar esses livros físicos, corra que até o dia 21/03 (amanhã!) a Companhia das Letras tá com promoção para a Trilogia Americana. Pastoral me saiu pela bagatela de R$9,90.

Fica também uma entrevista bacana com o escritor, e tem até legendas em português. A entrevista foi cedida para o Estadão, repórter Lúcia Guimarães, em 2010:



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Mais um trecho do Pastoral porque é realmente bom:
"Persiste o fato de que entender direito as pessoas não é uma coisa própria da vida, nem um pouco. Viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado, errado e errado, para depois, reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos: estando errados. Talvez a melhor coisa fosse esquecer se estamos certos ou errados a respeito das pessoas e simplesmente ir vivendo do jeito que der. Mas se você é capaz de fazer isso... bem, boa sorte".
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Se você gostou desse, provavelmente também vai gostar de:

Anna Kariênina
Liev Tolstói
Tradução: Rubens Figueiredo
Cosac Naify (2005)
816 páginas
Preço sugerido: R$109,00

Outro livro enorme em que basicamente todo mundo se fode no mau sentido.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Um crime delicado, Sérgio Sant'Anna

Ler esse livro do escritor carioca Sérgio Sant’Anna (1941) me lembrou o tempo todo os escritos de Enrique Vila-Matas, o que é engraçado porque é difícil encontrar um ponto de encontro entre os dois fora dessa impressão literária. Talvez um deles seja a admiração que Vila-Matas manifesta por César Aira, tradutor de Sant’Anna na Argentina. Tudo é coincidência.

A questão é que Um crime delicado (1997, Companhia das Letras, vencedor do Jabuti de 98) é um romance, em formato de desabafo, escrito por um crítico de teatro, encenado como uma peça, trabalhado como uma crítica. 

Antonio Martins é um crítico de teatro que se envolve em um processo criminal após o seu envolvimento com Ines, uma mulher manca que causa nele uma profunda impressão. O seu desabafo, que é então a narrativa, é a sua versão dos fatos.

Ao colocar o narrador no papel do crítico, Sant’Anna utiliza uma fórmula, um vício ao contrário, e cria um romance em que o crítico, no lugar de avaliar, é avaliado.

E esse crítico é assim: ele usa um estilo envelhecido, elegante é verdade, mas na maior parte do tempo pomposo, como pomposa parece ser a sua própria vida.

“Sobre uma leve camisa social listrada, de mangas compridas, que arregacei um pouco, eu vestira um colete desabotoado. Uma peça que, no meu entender, antes de ser anacrônica, era intemporal, concedendo-me ao mesmo tempo um toque clássico e moderno, de elegância discreta e jovialidade, esta última reforçada pela calça jeans que eu usava como todo mundo”.

Que passagem primorosa de descrição de um personagem! Pouca coisa precisa ser dita: alguém que precisa loucamente de um grau de aprovação qualquer, que está numa breve crise de identidade, que precisa se afirmar como elegante porém jovial. Ora, não parece a crítica literária atual (lembrando que o romance é de 1997)?

Assistindo a uma participação do professor João Cezar de Castro Rocha num encontro do Itaú Cultural, em novembro passado, vemos o crítico defender com veemência a “secundidade” da própria crítica. Ou seja, a crítica tem que assumir o seu papel secundário para então renovar seu discurso e retomar seu papel relevante no sistema cultural.

Sérgio Sant'Anna
Divulgação Companhia
das Letras
Mas parece que a crítica (com honrosas exceções como a de João Cezar), assim como o narrador de Um crime delicado (Antônio Martins - o sobrenome de um dos maiores críticos literários do século XX não é, apesar de comum, coincidência), nada contra uma corrente invisível. O narrador do romance não escreve o seu relato para se desculpar, para pôr a prova algum erro, não: ele escreve na defensiva.

Há, igualmente, essa corrente invisível contra qual a crítica tem que nadar. Há um não entedimento da atividade crítica generalizado: acadêmicos acham jornalistas superficiais, jornalistas acham acadêmicos entediantes, e numa dessas a relevância vai por água abaixo. Claro que há exceções, e são elas que nadam contra a corrente, essa talvez real.

Sobre toda essa questão, o Vila-Matas tem um trecho bom do Ar de Dylan:

“[…] admirava talvez falsamente porque — tendo começado a publicar nos anos que a crítica literária podia decidir o destino de um livro — adquirira o costume de se dar bem com aqueles resenhadores que revelavam um perigoso ânimo depredador, pois não parecia recomendável cruzar os braços diante deles e ficar inteiramente à mercê de sua sede de mal ou de sua vontade de invocar sempre aquele escritor fantasma que para eles seria o escritor perfeito: um narrador que eles pareciam conhecer a fundo porque era eles mesmos […]”

De fato, Enrique, era eles mesmos.

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Um crime delicado
Sérgio Sant'Anna
136 páginas
Preço sugerido: R$34,00

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O livro foi adaptado para o cinema por Beto Brant. Veja o trailer:

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Se você gostou desse, provavelmente também vai gostar de:
Ar de Dylan
Enrique Vila-Matas
Trad.: José Rubens Siqueira
320 páginas
Preço sugerido: R$59,00